
Eles fogem...
Eles calam-se e fogem, todos temos um pouco daquele medo que nos arrasta, ferra as garras no nosso corpo e nos consome, espreme-nos e delicia-se, porque entregamo-nos sem saber porquê.
Todos nós temos medo de saber que estamos fugindo, sem fazer nada.
Nem salvar uma flor!
Nem cuidar das ondas!
Nem proteger a terra!
Nem amar um pássaro ferido a tremer, que olha para a cara de um menino.
Nem uma lágrima de obrigado, uma lágrima muito quente escorrer e a aquecer o peito e que salva os inúteis...
Nem isso fazemos. Calamo-nos e fugimos com medo da nossa própria vida. Talvez já sejam horas demais para ser cedo, são quase horas de ser tarde. Talvez nem adiante pensar que estamos mortos.
Sós na vida.
Cansados.
Enterrados na cegueira que nos obriga a correr no mundo sem o compreender. Porque nem nós próprios nos compreendemos! É triste... É melancólico sentir a noite para quem não sonha...
É melancólico sentir que nem temos medo de sermos nós próprios a arma com que nos matamos.
Porque fugimos do mundo. Porque procuramos o nada de tudo. Aquele tudo que caberá numa grande folha, para pregar no nosso quarto, quando os nossos netos gostarem de ver a fotografia da inutilidade, que envelheceu a nossa mente tão estupidamente...
Quando sentirmos frio!
Quando o sol baixar e a luz se apagar. Quando precisarmos de amor, a folha iluminar-se-á e recordará que um pássaro nunca treme, nem sente frio, nem precisa de luz e amor, enquanto existirem crianças que com uma lágrima os façam aquecer e esquecer que não são pássaros, mas sim homens...
Homens que fogem...
Homens que gritam...
Homens que têm medo de serem homens...
Homens que passam a vida sem viver e apenas existem...
Toda a pessoa, que não olha para aquilo que a rodeia, para tudo aquilo que a suporta na terra, existe apenas.
Nem ela própria sabe que não vive, porque nunca viu uma flor, nem compreende que tudo diz alguma coisa antes de morrer.
Porque nunca ouviu o mar, as pedras, os moinhos, os pássaros, as flores, os montes e as casas falarem...
Porque a ignorância quis ser dona e rainha do seu próprio mundo!